Sobre a Humanidade Socialista

Isaac Deutscher

DATA


Primeira Edição: Palestra proferida na segunda Conferência dos Acadêmicos Socialistas, realizada em Nova York em Setembro de 1966.

Fonte: Centro Victor Meyer - http://centrovictormeyer.org.br/humanidade-socialista-isaac-deutscher/

Tradução: André Ribeiro a partir da publicação do texto na coletânea: El Marxismo de nuestro tiempo, Recopilación e introducción por Tamara Deutscher, Mexico, Ediciones Era, 1975.

Transcriçãoe HTML: Fernando Araújo.


Pediram-me para falar com vocês sobre a “Humanidade Socialista”. Este é um tema bastante amplo, a ponto de requerer tantas abordagens a partir de diversos ângulos, que devo pedir a vocês desculpas se o que vou dizer se assemelhar mais a uma conversa informal do que a uma conferência.

Os marxistas, em geral, têm sido renitentes em falar sobre a humanidade socialista; e devo confessar que eu mesmo senti algo desta resistência na primeira vez que esta conferência me foi proposta. Qualquer intenção de oferecer uma descrição da humanidade socialista, quer dizer, retratar o membro da futura sociedade sem classes, irá parecer tingido de utopia. Esse foi o domínio dos grandes visionários do socialismo, especialmente de Saint-Simon e Fourier, os quais, da mesma forma que os racionalistas franceses do século XVII, imaginaram que eles – e através deles, a Razão – finalmente haviam descoberto o homem ideal e que, uma vez feito este descobrimento, a realização deste ideal ocorreria a seguir. Nada mais distante de Marx e Engels e os principais marxistas das gerações subsequentes do que semelhante pensamento. Eles certamente não disseram à humanidade: “Aqui está o ideal, ajoelhe-se diante dele!” Em lugar de nos oferecer um esquema da sociedade futura, se dedicaram a produzir uma análise realista da sociedade tal qual era e é, a sociedade capitalista; e uma vez que as lutas de classes de seu tempo foram enfrentadas, se comprometeram de forma irrevogável com a causa do proletariado. Entretanto, ao responder as necessidades do seu tempo, não deram as costas para o futuro. Tentaram, no mínimo, de conjecturar a forma das coisas que estavam por vir; mas formularam suas conjecturas com fortes reservas e somente por acaso. Em seus volumosos escritos, Marx e Engels somente nos deixaram algumas poucas e dispersas alusões sobre o assunto que nos ocupa, alusões significativamente inter-relacionadas e que sugerem novos e imensos horizontes, mas são unicamente alusões. Sem dúvida, Karl Marx tinha a sua concepção da humanidade socialista, mas esta era a hipótese de trabalho de um analista, não a suposição de um visionário; e ainda que estivesse convencido do realismo histórico de suas previsões, as tratou com certa dose de ceticismo científico.

Marx examinou, para parafrasear sua própria expressão, o embrião do socialismo dentro da matriz do capitalismo; por conseguinte, somente pode ver o embrião da humanidade socialista. Com o risco de decepcionar a alguns de vocês, devo dizer que isso é tudo o que podemos fazer até agora. Depois de todas as revoluções de nossa época e em que pese tudo o que temos aprendido de Marx até aqui sobre a sociedade, não o superamos de modo algum no que se refere a este tema: ao discutir a humanidade socialista não podemos ir mais além dos rudimentos do problema. Qualquer coisa que possamos dizer a propósito deste assunto será necessariamente muito genérico, fragmentado, e em certo sentido, negativo. É mais fácil para nós enxergar o que não pode ser a humanidade socialista do que o que será. Entretanto, na medida em que a negação implica também afirmação, nossa caracterização negativa da humanidade socialista pressupõem também alguns de seus traços positivos.

O marxismo abordou a contradição principal da sociedade capitalista, a causa mais profunda de sua anarquia e irracionalidade, o conflito entre a crescente socialização do processo produtivo moderno e o caráter antissocial do controle que a propriedade privada exerce sobre este processo. A tecnologia e a indústria moderna tende a unir a sociedade, na medida em que a propriedade privada dos meios de produção a desune. O processo produtivo socializado, este elemento rudimentar do coletivismo que contém a economia capitalista – e se vocês preferirem neocapitalista – precisa libertar-se da propriedade burguesa que o restringe e que o desorganiza. Durante mais de um século os economistas burgueses permaneceram cegos diante desta contradição, até que Keynes e seus seguidores a seu modo eclético a reconheceram, rendendo assim uma homenagem inconfessada à crítica marxista. Mas o que o keneysianismo e o neocapitalismo, assustados mais do que nunca pelo espectro do comunismo, tem tratado de fazer é introduzir, sob a base da sociedade privada (quer dizer, das corporações capitalistas monopolistas) um tipo de controle pseudossocial sobre o processo produtivo socializado. Esta não é a primeira e nem será a última vez que os homens terão lutado desesperadamente para assegurar a sobrevivência de instituições ou modos arcaicos de vida, numa época em que deixam de ser necessárias e nem se pode servi-se delas. Eu vi uma vez em meu país de origem, a Polônia, um camponês que por acaso, adquiriu um automóvel e insistia em amarrá-los a seus cavalos. O keneysianismo e o neocapitalismo mantêm os cavalos da propriedade privada amarrados aos veículos de propulsão nuclear e as naves espaciais e ameaçam de tremer o céu e a terra para nos impedir de desamarrá-los.

Para voltar concretamente ao meu tema: nossa ideia do socialismo não é uma construção intelectual arbitrária do socialismo senão uma cuidadosa extrapolação e projeção para o futuro daqueles elementos de organização social racional que são inerentes a sociedade capitalista, mas que são constantemente frustrados e negados por esta. De maneira similar, nossa ideia da humanidade socialista não é senão uma projeção do homem social que já existe entre nós, mas que está deformado, esmagado e embrutecido pelas condições de vida em que (o germe da humanidade socialista está presente inclusive no trabalhador alienado do nosso tempo nos raros momentos em que se eleva a uma genuína consciência do seu papel na sociedade e tem uma solidariedade de classe, e quando luta pela sua emancipação.) É aqui onde nossas aspirações estão arraigadas na realidade e se alimentam delas, mas com muita frequência também são suas prisioneiras. Sabemos, repito, o que não pode ser e não será a humanidade socialista: não pode ser o produto de uma sociedade antagônica; não pode ser o produtor coletivo dominado por seu produto e seu meio ambiente social ao invés dominá-los. Não pode ser um joguete das forças cegas do mercado, nem um robô de uma economia de guerra neocapitalista administrada pelo Estado. Não pode ser o proletário alienado e intimidado de outrora, nem a lamentável cópia falsificada do pequeno burguês em que o Estado de bem-estar social está convertendo o operário. Pode ser ele mesmo como trabalhador coletivo somente em uma sociedade coletivista desenvolvida ao máximo. Somente essa sociedade lhe permitirá reduzir seu trabalho socialmente necessário ao mínimo tolerável que a nova tecnologia torne possível. Somente nessa sociedade poderá satisfazer suas necessidades materiais e espirituais com certeza e não ao acaso, de forma racional e não caprichosamente Somente nessa sociedade se orientará a si mesmo na satisfação de suas necessidades e no uso de seu tempo livre pelo discernimento instruído e a eleição inteligente, não por algum silencioso ou vociferante porta-voz da publicidade comercial. Somente numa sociedade socialista o homem poderá desenvolver todas as suas capacidades biológicas e espirituais, ampliar e integrar a sua personalidade e libertar-se do milenar e obscuro legado da escassez material, desigualdade e opressão. Somente nessa comunidade o homem poderá superar finalmente a separação entre o trabalho físico e intelectual, separação que tem determinado o distanciamento entre os homens, a divisão da humanidade entre governantes e governados e em classes antagônicas; separação que a nossa tecnologia avançada está tornando supérflua, inclusive agora, na medida em que o capitalismo e o neocapitalismo fazem todo o possível para perpetuá-la. A humanidade socialista poderá alcançar sua plena estatura somente no ápice de nossa cultura e nossa civilização, um ápice que temos em vista, mas para o qual nossas relações de propriedade, nossas instituições sociais e nossa inércia profundamente arraigada não nos permitem avançar tão firme e rapidamente como seria possível de fazê-lo.

Nossa ideia da humanidade socialista tem sido criticada com frequência por seu declarado otimismo. Dizem que nós somos utópicos e que nossos princípios histórico-filosóficos são insustentáveis. Dizem que o “paraíso na terra” de que os propagandistas do socialismo têm falado é tão inalcançável como o paraíso no céu que prometeram os teólogos. Devemos escutar tais criticas com juízo aberto: às vezes podemos encontrar grãos de verdade nelas. Devemos admitir que em mais de uma ocasião temos contemplado com demasiado otimismo, não somente o socialismo como tal, mas também os caminhos que conduzem à ele. Contudo também devemos compreender que muitas dessas críticas expressam tão somente o sentimento de predestinação que impregna a sociedade burguesa e seus ideólogos, ou então as formas irracionais de desilusão em nosso próprio campo. Desse modo, alguns dos existencialistas nos dizem que estamos tratando de fugir das aflições básicas da condição humana e fechando os olhos diante do inerente absurdo do nosso destino. É extremamente difícil estabelecer um debate frutífero com adversários que argumentam sub specie aeternitatis(1) e partindo de premissas puramente teleológicas. O existencialista pessimista faz a velha pergunta: qual é o propósito ou a finalidade da existência e da atividade da humanidade quando consideradas em relação à infinitude do tempo e do espaço? A esta pergunta, é claro, não podemos responder… como tampouco o existencialista pode responder. Mas a pergunta em si mesma é absurda, pois postula a necessidade de um propósito último, metafísico, da existência humana, um propósito válido para toda a eternidade. Não temos tal propósito nem o necessitamos. Não vemos nenhum sentido metafísico em nossa existência e, por conseguinte, tampouco nenhum absurdo. O absurdo e o sentido são somente frente e verso da mesma moeda: somente quando se postula o sentido se pode falar em absurdo. A condição humana que nos interessa não é a solidão do homem na infinitude do espaço e tempo – nessa infinitude, mesmo os termos de solidão e absurdo carecem de significado – senão a condição do homem na sociedade que é sua própria criação e que ele é capaz de mudar. O argumento sub specie aeternitatis é filosoficamente estéril e socialmente reacionário; em regra geral, é um argumento em favor da indiferença moral e do imobilismo político, um argumento em favor da aceitação resignada de nossas condições sociais tal como são. Felizmente, os existencialistas, como demonstra o notável exemplo de Sartre, podem ser filosoficamente inconsequentes e podem aceitar a ideia da humanidade socialista em que pese a sua concepção do absurdo da condição humana.

Mais específica, até certo ponto, é a crítica às aspirações marxistas que faz Sigmund Freud em O mal-estar na civilização.(2) À nossa concepção de que o homem pode viver e provavelmente viverá numa sociedade sem classes e sem Estado, ele responde com o velho adágio: Homo homini lúpus. Os seres humanos, disse, sempre serão agressivos e hostis entre si; seus instintos agressivos, que tem sua origem no sexo, estão biologicamente predeterminados e não são afetados de forma importante por nenhuma mudança na estrutura da sociedade.

Os comunistas – disse Freud – creem haver encontrado o caminho para nos libertar de nossos males. Segundo eles, o homem é inteiramente bom e bem disposto para com seu próximo, mas a instituição da propriedade privada tem corrompido a sua natureza. A propriedade privada da riqueza tem corrompido sua natureza. A propriedade privada da riqueza dá poder ao indivíduo, e com o poder de tentação de maltratar ao seu próximo; tanto que o homem excluído da possessão é chamado a rebelar-se com hostilidade contra o seu opressor. Se a propriedade privada fosse abolida, se toda a riqueza fosse possuída em comum e cada um permitisse participar do seu desfrute, a má vontade e a hostilidade iriam desaparecer entre os homens. Posto que as necessidades de todos fossem satisfeitas, ninguém teria razão para considerar ao outro como seu inimigo; todos realizariam voluntariamente o trabalho necessário.

Antes de continuar, vejamos se o resume freudiano da concepção marxista está correto. Nós consideramos realmente que o homem é “inteiramente bom por natureza e “de boa vontade com o seu próximo”? Freud, cuja informação sobre a teoria marxista era bastante deficiente, certamente se viu diante de algumas afirmações deste tipo na propaganda popular comunista ou socialdemocrata, onde efetivamente apareciam. A teoria marxista séria, no entanto, não incorre em nenhuma hipótese acerca da natureza humana. Em resumo, tais suposições poderiam ser achadas nos escritos juvenis, feurbachianos, de Marx. Recordo que este problema me preocupou fortemente quando, sendo jovem, me familiarizava com a teoria marxista e tratava de ver com clareza a concepção da natureza humana que lhe servia de base. Através do estudo dos escritos de Marx, Engels, Kautsky, Plekhanov, Mehring, Rosa de Luxemburgo, Lênin, Trotsky e Bukharin, cheguei a conclusão de que suas hipóteses sobre a natureza humana eram, digamos assim, essencialmente neutros. Eles não viam ao homem como “inteiramente bom” ou “inteiramente mau”, como ”de boa vontade” ou “de má vontade” diante do seu próximo; se negavam a aceitar a noção metafísica de uma natureza humana imutável e inalterada pelas condições sociais. Ainda sigo acreditando que a conclusão a que cheguei então estava correta.

O homem é criatura da natureza, porém mais particularmente daquela parte da natureza que, enquanto sociedade humana, se distingue da natureza e em parte de opõe à ela. Quaisquer que sejam as bases biológicas de nosso ser, as condições sociais constituem o fator decisivo na formação do nosso caráter: mesmo os fatores biológicos se refratam ao passar pela nossa personalidade social e são parcialmente transformados por ela. Até certa medida a natureza do homem, incluindo os seus instintos, vem sendo submersa e deformada por suas condições sociais, e somente quando essas condições perderem seu caráter opressivo e deformador poderemos obter uma visão mais clara e mais científica do que aquela que estamos tendo até agora, dos diversos elementos biológicos e sociais na natureza do homem.

A crítica principal que um marxista é demandado a fazer ao freudismo – e falo como alguém que reconhece sem barganhas a contribuição fundamental de Freud para a compreensão da psicologia – é que, com demasiada frequência, Freud e seus discípulos passam por cima desta refração e transmutação dos impulsos instintivos do homem, que ocorre por meio de sua identidade social mutável. Contudo, é Freud quem nos fez conscientes dos processos e mecanismos da sublimação. A psicanálise, até agora, somente tem se ocupado do homem burguês, do homem burguês da época do imperialismo, a quem tende a apresentar como o homem em geral, tratando seus conflitos internos de uma maneira supra-histórica, como conflitos que afligem aos seres humanos em todas as épocas, sob todas as ordens sociais, como conflitos inerentes a condição humana. A partir deste ponto de vista, o homem socialista somente pode ser visto como uma variante do homem burguês. O mesmo Freud faz esta afirmação:

Ao abolir a propriedade privada, privamos a aflição humana da agressão de um de seus instrumentos, forte sem dúvida, embora sem dúvida não o mais forte; mas de nenhuma maneira conseguiremos alterar as diferenças no poder e influência que são mal utilizadas pela agressividade, nem conseguiremos alterar nada em sua natureza.

A continuação torna esta assertiva mais categórica ainda:

A agressividade não foi criada pela propriedade; reinou quase sem limites nos tempos primitivos, quando a propriedade era, todavia, muito escassa e se manifesta já desde o berço, quase antes que a agressividade tenha abandonado sua forma anal primária. […] Se eliminarmos os direitos pessoais sobre a riqueza material, ainda restará a prerrogativa no campo das relações sexuais, que estará clamando em converter-se na fonte dos mais fortes desgostos e da mais violenta hostilidade entre os homens que, sob outros aspectos, gozarão de igualdade.

Assim, nos adverte que o homem socialista não será menos agressivo e hostil que o homem burguês frente aos seus próximos, e que a sua agressividade se manifestará inclusive na mais tenra idade, na creche.

Observe que enquanto Freud reconhece na propriedade privada um forte instrumento de agressão, afirma de maneira mais dogmática que não é o mais forte desses instrumentos. Como sabe? Como mede a força relativa dos diversos instrumentos de agressão? Nós os marxistas, somos mais modestos e menos dogmáticos: não pretendemos fazer medições comparativas tão precisas que nos permitam comparar os impulsos sexuais e a agressão instintiva em oposição as necessidades, aos interesses e as compulsões sociais. Os impulsos instintivos existirão também, sem dúvida, no homem socialista – e por acaso, poderia ser de outra maneira? – mas não sabemos como se irão se refratar por meio de sua personalidade. Somente podemos conjecturar que o afetarão de maneira diferente que ao homem burguês. (Vamos supor ainda que o homem socialista ofereça ao psicanalista um material de investigação e conclusões muito mais rico e confiável, porque um futuro Freud poderá observar diretamente o funcionamento dos seus impulsos instintivos através de um cristal e não por meio de prismas deformadores da psicologia de classe do analista e do paciente.) Tampouco Freud está certo ao dizer que a propriedade é somente um instrumento de nossos instintos agressivos. Pelo contrário, a propriedade frequentemente utiliza esses instintos como instrumentos e gera suas próprias variedades de impulsos agressivos. Além disso, ao longo da história os homens organizados em exércitos têm matado uns aos outros pela propriedade ou por suas pretensões a propriedade; mas até agora não têm desencadeado guerras, exceto na mitologia, pelas “prerrogativas no campo das relações sexuais”.

Assim, pois, quando Freud afirma que a abolição da propriedade não irá alterar “as diferenças em poder e influência que são mal utilizadas pela agressividade” e não “irá alterar nada na natureza da agressão humana”, simplesmente incorre numa petição de princípio(3). E quando diz em seguida que “a agressividade […] reinou quase sem limites nos tempos primitivos, quando a propriedade era todavia muito escassa”, sequer suspeita que foi precisamente a escassez da propriedade, quer dizer, a escassez material, o que destruiu a unidade da sociedade primitiva ao dar lugar a luta de selvagem pelos poucos recursos, lutas que a dividiram em classes mutuamente hostis. Daí, afirmamos que a humanidade socialista somente é possível em meio de uma abundância sem precedentes de bens e serviços materiais e culturais. Este é o ABC do marxismo. Um amigo meu, um velho e sábio psicanalista, com frequência me diz suspirando: “Ah, se Freud tivesse lido A Origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Engels, quantos erros e falsos caminhos teria evitado!” Quiçá também tivesse evitado da argumentos a quem utiliza o homo homini lupus como grito de guerra contra o progresso e o socialismo e agita o espantalho do eterno lupus humano em proveito do verdadeiro e sanguinário lupus do imperialismo contemporâneo.

Bem que poderíamos concordar que a agressividade do homem socialista venha a se manifestar desde o jardim da infância “em sua forma primária” e em outras manifestações mais desenvolvidas. Entretanto, dependerá muito, entre outras coisas, do caráter do jardim da infância. Será que o imaginamos como um jardim de infância individual dentro da unidade familiar? Ou como um jardim de infância comunitário depois da dissolução desta unidade familiar? Suponhamos que em nossa hipótese sobre a humanidade socialista, este não viverá nada parecido com a atual família monogâmica, com seu nexo monetário e a dependência da mulher e da criança em relação ao pai. Vamos supor que a homem socialista esteja muito menos submetido, desde a sua infância, a autoridade paterna que os seus predecessores ou que não conhecerá em absoluto esta autoridade; e que, como adulto, será livre também em sua vida sexual e erótica, ou em todo caso, incomparavelmente mais livre que o homem burguês para obedecer a seus impulsos emocionais e a sua necessidade de amor sem entrar em conflito com a sociedade. Seus impulsos instintivos irão se refratar através de sua personalidade de uma maneira que não podemos predizer, mas que seguramente não será da maneira que Freud deduziu. Deveríamos, por exemplo, deduzir que o homem socialista haverá de sofrer do Complexo de Édipo? Este complexo, que tão poderosamente tem operado em nossa psique, pelo menos desde que a sociedade matriarcal deu um passo para a forma patriarcal, seguirá existindo quando a humanidade tiver superado a forma burguesa da família patriarcal? E podemos nos perguntar como será o superego no homem socialista, o superego que opera em nós como nosso censor moral inconsciente e como nosso pai dentro de nós. Freud, que confunde a paternidade, que é uma categoria biológica, com a autoridade paterna, que é uma instituição social, deduz que o superego, o complexo de Édipo e outros reflexos da sociedade paternalista na mente do indivíduo, sejam eternos. Certo é que, parece que ele sentiu uma premonição momentânea de outras possibilidades: “Se eliminarmos este fator também [quer dizer, “as prerrogativas no campo das relações sexuais”] mediante a concessão de uma completa liberdade na vida sexual, abolindo assim a família, célula germinal da civilização, não podemos, é verdade, prever que novos caminhos poderiam seguir o desenvolvimento da civilização”. Não pode, contudo, visualizar esta possibilidade, pois a família monogâmica é para ele a célula germinal indispensável da civilização, e seu pensamento nem sequer pode se afastar de seu paciente, o burguês monogâmico que jaz diante dele no divã. E assim, mesmo que desconfortavelmente conceda que não se possa prever que novos caminhos poderia seguir o desenvolvimento da civilização sem a família, está seguro de que a indestrutível agressividade da natureza humana perseguirá a humanidade socialista mais além da sociedade classista, do Estado e da família.

Aqui também nós, os marxistas, preferimos certa dose de agnosticismo. Preocupa-nos principalmente, com certeza, a crueldade e a opressão que geram diretamente a pobreza, a escassez de bens, a sociedade classista e a dominação do homem pelo homem. Cada vez que Freud se aventura nos campos da sociologia e da história desaprovação de que fala, querendo ou não, como um apologista da sociedade existente. Não obstante, temos aprendido com ele algo importante acerca da realidade dos elementos destrutivos e agressivos na natureza humana. É verdade que, supostamente, os imperadores, os reis, chefes guerreiros, ditadores, governos e dirigentes de todo o tipo não teriam conseguido que os homens se comportassem tão agressivamente como tem feito se a agressividade não estivesse presente na natureza humana: nossos governantes têm recorrido sempre aos impulsos instintivos mais vis do homem. Em que medida a agressividade biológica ou sexualmente condicionada afetará as relações não biológicas do homem socialista, é uma pergunta cuja resposta devemos postergar.

Nós não sustentamos que o socialismo vá remediar todas as aflições da raça humana. Estamos lutando, em primeira instância, com as aflições que são produto do homem e que o homem pode remediar. Permitam-me recordar que Trotsky, por exemplo, fala de três tragédias básicas – a fome, o sexo e a morte – que perturbam ao homem. A fome é o inimigo ao qual o marxismo e o movimento operário moderno têm combatido. Ao fazê-lo, tende naturalmente a ignorar ou subestimar as outras aflições do homem. Mas, não é certo que a fome ou, em termos mais gerais, a desigualdade social e a opressão têm complicado e intensificado enormemente para um número incontável de seres humanos os tormentos do sexo e da morte também? Ao lutar contra a desigualdade e a opressão, lutamos também pela mitigação dos golpes que a natureza nos aflige. Eu creio que o marxismo está correndo pelo lado correto das tarefas que a nossa sociedade deve enfrentar. Os freudianos têm se concentrado na questão sexual e por isso têm ignorado ou subestimado os problemas sociais do homem. E qual é o resultado? Em que pese toda a importância teórica da psicanálise, os benefícios práticos de sua terapia em nossa sociedade somente estão ao alcance de uma pequena minoria privilegiada. Nossa visão da humanidade socialista, por outro lado, tem inspirado um enorme setor da humanidade; e mesmo que tenhamos lutado com pouca sorte e tenhamos sofrido terríveis derrotas, temos logrado mover montanhas, enquanto que toda a psicanálise do mundo não pode reduzir uma ponta da agressividade que preenche o nosso mundo.

Sim, a humanidade socialista seguirá perseguida pelo sexo e pela morte; porém estamos convencidos de que estará mais bem preparado que nós para enfrentá-los. E se a sua natureza permanece sendo agressiva, sua sociedade lhe oferecerá oportunidades infinitamente maiores e mais variadas que as do homem burguês para sublimar seus impulsos instintivos e canalizá-lo para vias criativas. Mesmo quando o homem socialista não esteja completamente “livre de culpa e de dor”, como o sonho de Shelley, ainda poderá existir “sem cetro, livre, irrestrito, homem comum, sem classe, sem tribo, e sem nação, isento de toda adoração e assombro”. O membro comum e frequente da sociedade socialista poderá ser elevado, como o pressupõe Trotsky, a estatura de Aristóteles, Goethe, Marx, os quais, qualquer que tenham sido os seus instintos sexuais e seus impulsos agressivos, encarnaram algumas das mais altas conquistas da humanidade até esta data. Vamos supor que “sobre esse patamar se alcançarão novas alturas”. Não vemos no homem socialista o produto último e perfeito da evolução, ou o fim da história, senão, em certo sentido, somente o seu começo. O homem socialista poderá sentir o Unbehagen,(4) o desconforto e o desassossego que a civilização impõe à besta que há no homem. Esta poderá ser inclusive, a mais essencial de suas contradições íntimas que o impulsionarão a evoluir mais ainda e a buscar patamares que nós não podemos sequer imaginar.

Estas ideias são ou devem ser verdades evidentes para qualquer marxista, e eu talvez deva me desculpar por enunciá-las numa Conferência de Catedráticos Socialistas. Desgraçadamente, na condição em que se encontra atualmente o movimento operário e o pensamento socialista é necessário reafirmar certas verdades elementares, já que muitas vezes são omitidas ou falsificadas em favor de causas com duvidosa conveniência política. Eu tenho ouvido dizer, por exemplo, que o sujeito adequado da minha análise deveria ser o homem socialista que vive hoje na URSS ou na China. Eu compartilharia essa opinião somente se acreditasse que esses países tivessem alcançado ou estão em vias de alcançar o socialismo. Não creio em tal coisa e não creio que o indivíduo típico, nem sequer o indivíduo avançado, da sociedade soviética ou chinesa atual possa ser descrito como homem socialista.

Todos, supostamente, falamos informalmente sobre a URSS, a China e os Estados associados e dissociados como “socialistas”; e temos direito de fazê-lo embora nossa proposta seja simplesmente opor esses regimes aos Estados capitalistas, indicar seu caráter pós-capitalista ou nos referir às origens e inspiração socialista de seus governos e suas políticas. Mas o que nos interessa aqui é uma descrição teoricamente correta da estrutura de sua sociedade e da natureza da relação humana que evolui dentro desta estrutura. Vocês recordam que há mais de trinta anos, Stalin proclamou que a União Soviética havia concluído a construção do socialismo, e até agora, em que pese a desestalinização e a demolição de tantos mitos stalinistas, este continuou sendo um princípio central da ideologia soviética oficial. Mais ainda, os sucessores de Stalin pretendem que a União Soviética esteja empenhada agora na transição do socialismo ao comunismo ou que venha a entrar nesta etapa superior da sociedade sem classes, que precisa completar o ciclo da transformação socialista inaugurado pela revolução de outubro. Os porta-vozes da República Popular da China têm manifestado pretensões similares em relação ao seu país. Então, o dogma stalinista sobre o êxito do socialismo na União Soviética tem afetado e alterado de maneira significativa a imagem pública do homem socialista e também o pensamento de um número considerável de estudiosos socialistas. Entretanto, uma coisa deveria ser imediatamente óbvia: o homem típico da sociedade soviética, sob Stalin ou sob seus sucessores, oferece um contraste tão notável com a concepção marxista da humanidade socialista, que somos obrigados a fazer uma coisa ou outra: ou nos negamos a considerá-lo como homem socialista, ou então deixamos de lado a concepção marxista, tal como a escola de pensamento stalinista tacitamente o fez. Não se trata de uma disputa sobre a letra do Evangelho, mas sim uma questão da maior importância teórica e prática para nós. Se a nossa meta é a humanidade socialista, logo a nossa concepção ou a imagem desta humanidade socialista é de importância vital para o nosso pensamento teórico, para o clima moral e político do movimento operário e para nossa própria capacidade ou incapacidade de inspirar as nossas classes trabalhadoras.

Assim, o homem socialista foi concebido por Marx e por todos seus seguidores até Stalin, como um produtor livremente associado que trabalha, mesmo na chamada fase inferior do comunismo, sob uma economia planejada, não como um comprador ou vendedor que comercia produtos nos mercados, mas como alguém que produz bens para a sociedade em geral e os recebe para consumo pessoal do fundo comum da sociedade. Por definição, o homem socialista vive numa sociedade sem classes e sem Estado, livre da opressão social ou política, mesmo quando a princípio ainda pese sobre ele um fardo – o fardo em diminuição constante da desigualdade herdada. A sociedade na qual se vive deverá ser tão desenvolvida, tão rica, instruída e civilizada que não dê lugar a nenhuma necessidade objetiva que possa permitir um recrudescimento da desigualdade ou da opressão. Isto é o que todos os marxistas antes de Stalin davam como certo. Este é o ideal que tem inspirado a gerações de socialistas; sem ele, o socialismo nunca teria chegado ser a força dinâmica do século. O marxismo tem demonstrado o caráter realista deste ideal tornando claro que todo o desenvolvimento da sociedade moderna, com sua tecnologia, sua indústria e seu processo produtivo cada vez mais socializado, tende a este resultado. No entanto, o homem socialista que Stalin e seus sucessores têm mostrado ao mundo é uma lamentável paródia do homem socialista. O fato é que o cidadão soviético tem vivido numa sociedade em que o Estado, e não os capitalistas possuem os meios de produção. Mas a sociedade soviética tem sofrido, e sofre ainda, de uma escassez material, de uma escassez aguda de bens de consumo em primeiro lugar, que tem conduzido ao longo de várias décadas num inevitável recrudescimento e agravamento das desigualdades sociais, numa profunda divisão entre uma minoria privilegiada e uma maioria indigente, numa reafirmação espontânea das forças econômicas do mercado, e num ressurgimento e um incremento aterrador das funções opressivas do Estado.

O homem socialista que Stalin apresentou ao mundo foi um operário ou o camponês faminto, mal vestido, mal calçado ou talvez descalço, que vendia ou comprava uma camisa, um móvel, algumas gramas de carne e até um pedaço de pão no mercado negro ou no mercado paralelo, que trabalha dez ou doze horas por dia sob uma disciplina de quartel numa fábrica, que pagava qualquer delito real ou suposto com anos de trabalhos forçados num campo de concentração. Não se atrevia a criticar a um diretor de fábrica, o que dizer então a um funcionário do partido. Não tinha direito a expressar nenhuma opinião sobre nenhuma questão relevante que afetasse seu destino ou do seu país. Tinha que votar como lhe era ordenado; aplaudir ao Chefe com frenético entusiasmo, como lhe era ordenado; e deixar que a sua dignidade e sua personalidade fossem enganadas pelo chamado culto da personalidade. Estes são os fatos, descritos oficialmente pelos dirigentes soviéticos e refletidos por uma vasta literatura soviética. Embora nos últimos anos as condições tenham sido mitigadas, a pobreza, a desigualdade, a falta de liberdade política e intelectual e o terror burocrático seguem existindo.

Meu propósito ao evocar tudo isso não é polêmico, embora somente seja porque eu vejo a causa principal destas condições não unicamente na má vontade dos dirigentes (que desde sempre nunca tem faltado), senão nas circunstâncias objetivas, na terrível pobreza herdada que a União Soviética (e agora a China) tem precisado superar em meio do isolamento, os bloqueios, as guerras e corridas armamentistas. Seria impossível que um país assim pudesse alcançar o socialismo sob tais circunstâncias. Precisava dedicar todas as suas energias a “acumulação primitiva”, quer dizer, a criação, sob a propriedade estatal, dos pré-requisitos econômicos mais essenciais para qualquer genuína construção do socialismo. Por consequência, a União Soviética é, ainda hoje, uma sociedade de transição que se encontra num ponto intermediário entre o capitalismo e o socialismo, que combina traços de um e outro e inclusive, exibe características de seu legado primitivo pré-capitalista. O mesmo pode ser dito, com certeza, da China, Vietnam, Coréia do Norte e a maior parte da Europa Oriental. Nós do Ocidente carregamos uma grande responsabilidade pelas dificuldades desses países: nosso fracasso na promoção do socialismo no Ocidente tem sido a causa determinante de seu fracasso. Porém, se tivermos que enfrentar a nossa tarefa novamente e capacitar a uma nova geração de socialistas para que prossiga na luta, devemos limpar definitivamente as nossas mentes das falsas concepções e dos mitos que tem crescido nas últimas décadas. Devemos desvincular o socialismo de uma vez por todas, não da União Soviética ou da China e de seus êxitos progressistas, mas sim da paródia stalinista e pós-stalinista da humanidade socialista.

Não posso me deter aqui na análise dos motivos do dogma e prestígio que levaram Stalin a proclamar que a União Soviética havia alcançado o socialismo e que ainda move os seus sucessores em manter esta ambição. O que me interessa aqui é unicamente o impacto que esse dogma ou alarde teve sobre o socialismo no Ocidente. Esse impacto foi desastroso. Nossos movimentos operários foram desmoralizados e o pensamento socialista foi turvado. Nossas classes trabalhadoras têm observado do seu ponto de vista o desenvolvimento dos acontecimentos na União Soviética e tem extraído suas próprias conclusões. “Se esse é o ideal da humanidade socialista” dizem por consequência, “então não temos nada a ver com ela”. Uma grande parte de nossa intelectualidade socialista tem reagido de forma similar ou tem se emaranhado de tal maneira na mitologia e na doutrina stalinista, que perderam o impulso e o poder de convicção socialista e ficaram desarmadas espiritualmente de tal sorte que tem sido incapaz de lutar contra a desilusão e a apatia das classes trabalhadoras.

Em certa ocasião, disseram que os jesuítas não haviam conseguido elevar a terra até o céu, então fizeram com que o céu declinasse até a terra. De maneira similar, Stalin e o stalinismo, ao não conseguir elevar a Rússia carente e miserável até o socialismo, fizeram com que o socialismo declinasse ao nível da miséria russa. Poderia ser argumentado que foram compelidos a fazer assim. Então, se esse fosse o caso, nós teríamos que fazer outra coisa: teríamos que explicar às nossas classes trabalhadoras e à nossa intelectualidade porque a União Soviética e a China não puderam nem poderiam produzir a humanidade socialista, apesar dos grandes êxitos de que são credoras, de nosso reconhecimento e nossa solidariedade. Devemos restaurar a imagem do homem socialista em todo seu esplendor espiritual. Devemos restaurá-la primeiro em nossas próprias mentes e depois, nos fortalecer em nossa convicção e nos rearmar politicamente. Devemos levar uma vez mais a consciência socialista e a ideia socialista à classe trabalhadora.

Neste ponto foi lida uma carta de Herbert Marcuse. Ele propunha a tese de que as conclusões do marxismo tradicional estavam fora de moda e necessitavam ser revisadas; em particular, sugeria que a classe trabalhadora já não podia seguir sendo considerada como agente da revolução. Depois de uma discussão seguida de perguntas e comentários do público sobre a carta de Marcuse, Deutscher se referiu à tese de Marcuse em suas observações finais.

Senhor Presidente, creio que você exagerou quando disse que agora eu faria a réplica. Estou, todavia, me recobrando da penosa surpresa, pelo menos, da primeira metade de nossa discussão. Inclusive na minha idade, se aprende o tempo todo.

Sinto-me agradecido aos dois últimos oradores que de alguma maneira restabeleceram meu sentido de realidade. Posso estar ou não de acordo com eles, mas podemos discutir. Entretanto, sinto que devo dedicar a maior parte da minha resposta aos oradores que participaram na primeira parte do debatem porque na primeira metade do debate percebo haver um sintoma inquietante por outro fermento intelectual criativo que está surgindo nas mentes da inteligência norte americana, na jovem geração de estudiosos norte americanos. Mas existem estranhos subprodutos disso, que me parecem na verdade, muito, muito perigosos.

E estou quase perplexo pela declaração que nos enviou o professor Marcuse. Como os primeiros oradores estavam formando verdadeiramente um coro de apoio ao seu inspirador ausente, eu, afortunadamente, tive que me concentrar na declaração do professor Marcuse. Ele propõe três ou quatro pontos importantes, mas os apresenta de forma tão vaga e evasiva que também isto torna a discussão algo difícil.

Antes de tudo, afirma que estamos muito a frente de Marx e do marxismo, que nossa avançada sociedade ocidental tornou o marxismo obsoleto, e, por conseguinte, devemos seguir avançando a partir do marxismo. Eu sempre me inclino a dizer que sim, quando me dizem que o marxismo não é sem dúvida a última palavra no desenvolvimento do pensamento humano, que temos que ir mais além do marxismo. Esta é uma objeção muito marxista ao marxismo e me inclino a aplaudi-la. Mas também devemos refletir por um momento em que aspecto o marxismo é tão obsoleto e de onde se supõe que devemos avançar nos distanciando dele.

Em primeiro lugar devo perguntar: a contradição básica da sociedade capitalista, tal como o marxismo tem analisado e diagnosticado, a contradição entre o processo socializado da produção e o caráter antissocial do controle da produção pela propriedade privada, teria sido superada esta contradição básica? Ou esta contradição estaria ficando vez mais e mais profunda, mais e mais irracional, a cada década que passa?

Dizem que a sociedade norte americana avançada tornou obsoleta a análise marxista do capitalismo. Mas será que esta sociedade, que mantém seu equilíbrio e segue fazendo a sua produção andar com a ajuda de um estado de guerra quase permanente, fez isso?

Eu simplesmente não entendo a lógica ou ilógica do processo de raciocínio mediante o qual alguns podem chegar a semelhante conclusão. Dizem-nos que com certeza, em 1966 não podemos sustentar que um diagnóstico, feito com base na tecnologia de 1867, siga sendo válido. Dizem-nos que, portanto, abandonamos esse marxismo atrasado.

Meu argumento é que, pelo contrário, Marx estava intelectualmente tão avançado em relação ao seu tempo – em relação à sociedade em que vivia – que inclusive agora continuamos ainda atrasados em muitos aspectos em relação à ele. E se alguém deseja uma confirmação disto, não precisa mais escutar o nosso debate.

O fato é que há cem anos Marx postulou como premissa do socialismo uma sociedade altamente desenvolvida tecnologicamente, uma sociedade capaz de produzir tal abundancia de bens, que realmente para a sua época inclusive, a visão de semelhante sociedade era quase utópica. Se fossemos analisar as estatísticas de produção per capita dos mais avançados Estados capitalistas do século XIX, chegaríamos a conclusão de que se o socialismo tivesse triunfado então, realmente teria triunfado no que, segundo nossos padrões atuais, seria uma sociedade subdesenvolvida. Esta é a critica que pode ser feita a Marx: que estava intelectualmente tão avançado em relação a sua época, e casualmente também em relação a nossa, que ainda não tivemos êxito de alcançá-lo.

Marx, dizem, não havia previsto uma sociedade dominada pela cibernética, na qual as máquinas fariam o trabalho do homem em escala que está se fazendo hoje, computadores e tudo mais. Marx não previu uma sociedade na qual os cientistas e a protoclasse dos cientistas viria a ser tão importante. Mas, pelo contrário, Marx sempre assumiu que sua sociedade já estaria a ponto de se converter em tal sociedade, e nisto estava equivocado. É correto dizer que, seguramente uma teoria formulada há cem anos deve ser obsoleta em alguns aspectos, embora muitos daqueles que afirmam isso, muitas vezes nos dizem ao final – e nos aconselham a tomar drogas para nos “libertar” da opressão desta sociedade – que advogam por um retorno a algumas ideias pré-marxistas, ou então a um cristianismo que é dois mil anos mais velho que o marxismo.

Ou, além do mais, quando temos que enfrentar os críticos do marxismo, muito educados e muito sofisticados, aí nos oferecem o retorno, a regressão – embora não uma regressão infantil – ao socialismo utópico ou ao racionalismo do século XVIII. Contudo, existem certas revoluções no pensamento humano que são irreversíveis. Nada pode nos fazer retornar aos sistemas cosmológicos pré-copernicanos por mais que o desenvolvimento da mente humana tenha avançado desde Copérnico a Einstein; mesmo que somente o tenha elaborado há uns duzentos e cinquenta anos.

Eu não creio que o marxismo possa ser superado em sua ampla crítica ao sistema capitalista enquanto que esse sistema, independentemente de quanto ainda venha a se desenvolver, continue conosco. Nossa falta de paciência com certas fórmulas e verdades evidentes do marxismo não converte essas verdades em falsas ou inúteis.

Bom, alguns creem que é suficiente voltar ao jovem Marx e declamar, dentro e fora de contexto, seus primeiros e ainda imaturos raciocínios sobre a “reificação” e alienação, e repeti-los em círculos, para resolver os problemas de nossa época. Mas não vão mais além do marxismo, somente retornam do Marx maduro ao Marx imaturo, ao Marx quase adolescente.

Porém, mesmo o Marx adolescente era um pensador muito maduro comparado a esses que agora exibem – como disse um dos oradores – esta tendência à regressão infantil.

Eu vejo unicamente um aspecto, um tema importante, no qual o marxismo, o prognóstico marxista do socialismo, tem sido realmente distorcido em certa medida por alguns acontecimentos. Aqui me refiro ao fato do socialismo não ter triunfado até agora em nenhuma das sociedades capitalistas avançadas, apenas nas atrasadas, nas quais uma estrutura feudal estava começando a ser derrubada sob o impacto do capitalismo e onde os sistemas feudais e capitalistas se fundiram sob o impacto de revoluções primitivas burguesas e socialistas.

Portanto, temos um legado deste desenvolvimento histórico, um desenvolvimento histórico que realmente difere do prognóstico marxista: encontramos uma tremenda discrepância e um abismo entre o Este e o Oeste, um abismo que, infelizmente, tende a se perpetuar em detrimento tanto do Este como do Oeste.

E para os marxistas, para os socialistas, para os estudiosos socialistas, tanto deste país como de qualquer outro, o grande problema de nossa época, o grande problema do movimento rumo ao nosso objetivo, rumo à humanidade socialista, rumo a uma sociedade socialista, é como superar este abismo existente entre as rotas históricas separadas e divergentes que têm empreendido o Este e o Oeste. Este é o problema real do qual não é possível fugir mediante alguma utopia ou alguma droga “libertadora”.

Quisera poder compartilhar o entusiasmo do meu companheiro da direita (do auditório) pelo que está acontecendo na China. Quisera que eu pudesse fazê-lo, pois reconheço o grande idealismo revolucionário e o valor internacional de certas inovações revolucionárias que têm sido realizadas pelos chineses.

Desgraçadamente, não nos traria nenhum benefício mostrar tal desdém idealista devido à realidade da situação material chinesa, devido ao atraso cultural e industrial de uma sociedade que teve o heroísmo de iniciar uma revolução socialista em meio a sua aterradora pobreza e atraso. Estes fatores, infelizmente, influenciam a política dos governos chineses e levam o Exército Vermelho a repudiar não somente ao chamado revisionismo russo, mas também a Beethoven e Shakespeare como inúteis desperdícios de uma cultura burguesa degenerada.

Eu não posso aceitar isso como socialismo. Não posso aceitar isso como uma experiência libertadora. Como tampouco posso aceitar que o culto de Mao seja em nada melhor que o culto a Stalin, mesmo que em certos aspectos fosse mais desculpável.

Todos esses desenvolvimentos aprofundam e alargam o trágico abismo entre as sociedades capitalistas avançadas do Oeste, incluindo as suas classes trabalhadoras e as sociedades revolucionárias pós-capitalistas do Este. O precedente histórico que temos em conta é o abismo que se abriu, durante as guerras religiosas, entre os países católicos e protestantes.

O protestantismo, também, começou como movimento libertador, como um protesto contra a opressão da Igreja Católica; mas logo, no processo de luta, também o protestantismo desenvolveu seus próprios traços opressivos. E logo, depois de décadas e séculos de luta, a situação chegou a ficar estável; e a linha divisória entre países católicos e protestantes não podia ser removida.

A coexistência histórica entre os credos religiosos rivais, atrás dos quais havia também grandes movimentos sociais, se converteu em um fato. Algo semelhante sucedeu em nossa época: fomos testemunhas da real coexistência – isto é, uma coexistência antagônica e hostil – de dois sistemas relativamente estáveis, o sistema capitalista imperialista ocidental e o sistema pós-capitalista, semi-socialista oriental.

Eu acredito, no entanto, que esta analogia histórica pode ser enganosa, é enganosa em um aspecto. O protestantismo e o catolicismo podem existir a longo prazo. O mundo, na era seguinte às guerras religiosas, não era ainda um mundo único. Não era ainda um mundo unificado pela tecnologia e a indústria. Era um mundo fragmentado em muitas unidades de jovens nações Estado, de unidades feudais, semifeudais e principados particularistas.

Atualmente, o mundo é um único mundo potencial e mesmo real; a tecnologia e o desenvolvimento das forças produtivas fazem da humanidade uma unidade indissolúvel, que clama pela integração. Ou a humanidade é integrada no socialismo ou está condenada a perecer. Portanto, seria impossível hoje o tipo de estabilização das linhas divisórias que existiu depois das guerras religiosas. O mundo chegará a ser unificado e deve ser um. E somente o socialismo pode unificá-lo. O capitalismo somente pode mantê-lo desunido e conduzi-lo ao desastre.

Mas a questão é: qual é o caminho para essa unificação do mundo? Pode, enquanto isso converter-se num processo único a luta de classes no mundo?

Marx falou sobre a história da humanidade como a história da luta de classes. Mas naturalmente, a luta de classes não se desenvolveu através da história sempre com a mesma intensidade em todo o mundo, nem em todas as épocas. A transição do capitalismo ao socialismo, como sabemos agora, é um problema de muitas gerações.

Eu não me sinto tão desencorajado pelo fato de que a luta de classes tenha avançado tão lentamente em nossa sociedade ocidental, como que nos impelindo a abandonar a análise e o prognóstico marxista. Que nossas classes trabalhadoras, especialmente o grupo com mais idade dentro dessas classes trabalhadoras, tenham se deixado confundir. Não obstante, eu creio que o problema que colocou o falecido C. Wright Mills, o problema de quem continua sendo o agente do socialismo – a classe trabalhadora ou as elites da intelligentsia – requer, especialmente nos Estados Unidos, uma discussão profunda e uma análise profunda porque em nenhuma outra parte este tema se apresenta com igual gravidade.

Agora faz sessenta anos desde que um grande marxista russo, Léon Trotsky, disse que a Europa ocidental exportava seus dois produtos principais para duas direções distintas. Exportava sua ideologia mais avançada, o marxismo, para a Rússia. Exportava sua mais avançada tecnologia para os Estados Unidos.

Mas a Rússia que recebeu o marxismo como uma importação da Europa ocidental estava atrasada tecnológica e industrialmente, era a mais atrasada das grandes nações da Europa.

Os Estados Unidos, que possui uma tecnologia tão avançada, infelizmente têm permanecido atrasados em relação ao pensamento político. Até hoje (e lamento dizê-lo) continua sendo um país com pensamento político extremamente atrasado.

E eu creio, gostaria de acreditar, que os grandes movimentos de informação dos dois últimos anos, e encontros como este presente, é uma prova de que os Estados Unidos estão tentando, estão começando a romper seu atraso em matéria de ideologia e pensamento político. Mas o quanto falta para se agitar!

Creio que é uma grande debilidade deste movimento que celebramos aqui, uma conferência de estudiosos norte americanos que se realiza sem despertar nenhum interesse em suas classes trabalhadoras. E vocês não devem – não o têm direito – de se lamentar porque muitos de vocês estudiosos socialistas norte americanos – não gostaria de generalizar – não sentem interesse por suas classes trabalhadoras.

Não tenho a intenção de depreciar ou diminuir movimentos de protesto gerados pela intelligentsia. Sempre recordo que ao longo do século XIX a intelligentsia russa carregou sobre os seus ombros frágeis o tremendo fardo da luta contra a autocracia russa, todo o tremendo fardo da revolução russa.

Geração após geração da intelligentsia russa, no século XIX se atirou de cabeça heroicamente, se auto sacrificando contra as muralhas, as muralhas de ferro da autocracia czarista russa, e pereceram. Mas não pereceram em vão. Prepararam o futuro, trabalharam para o futuro.

Creio que também vocês estão trabalhando para o futuro, para a humanidade socialista. A intelligentsia russa no século XIX – estava então muito isolada, os camponeses não lhe respondiam, a classe trabalhadora não havia nascido ainda – a intelligentsia estava isolada e por isso, porque seus homens lutavam sozinhos, desenvolveram uma certa megalomania; e a grande epopeia da luta revolucionária da Rússia do século XIX está cheia de interlúdios patéticos e excêntricos. Porque os intelectuais, quando não tem um contato vivo com as massas trabalhadoras de seus próprios países, tendem a desenvolver o seu próprio autocentrismo extravagante e tendem a produzir, quem sabe, remédios ilusórios para a sociedade.

Nossa discussão tem revelado algo de semelhante debilidade na América do Norte atual. Desculpem-me se fujo do meu tema, a humanidade socialista, mas temos que discutir o homem que deve pavimentar o caminho para a humanidade socialista. Esses são vocês.

Eu estou convencido – e não é uma questão de fé dogmática senão uma análise marxista da sociedade – de que suas classes trabalhadoras continuam sendo o agente decisivo do socialismo, tanto quanto as classes trabalhadoras russas provaram ser o agente decisivo do socialismo depois de que gerações inteiras da intelligentsia lutaram sozinhas.

Pode ser que vocês também estejam lutando sozinhos. Dependerá de vocês por quanto tempo. Quiçá somente dentro de poucos anos conseguirão encontrar o caminho para suas classes trabalhadoras. Ou por décadas se tratarem de ignorar as suas classes trabalhadoras. Podem bater com a cabeça contra, sabe lá quantas muralhas de ferro se as suas classes trabalhadoras forem ignoradas. Porque cada movimento de protesto, cada movimento de oposição às poderosas oligarquias capitalistas, está condenado em última instancia a ser impotente, se não conseguir um sólido apoio no aparelho produtivo da nação.

É verdade que os seus cientistas possuem neste momento um apoio mais firme no aparelho produtivo da nação que possuía qualquer geração anterior. Mas a grande massa de produtores – por mais que se fale sobre cibernética e a grande visão de um futuro supercibernético – a grande massa de produtores na sociedade de vocês são os trabalhadores. E não creio que possuam muitas outras razões para que estejam satisfeitos com esta sociedade, com sua condição de excluídos dela. O que então poderia deixá-los satisfeitos com essa sociedade, vocês jovens estudantes norte americanos?

Realmente, será que vocês olham com tal desprezo para as suas classes trabalhadoras que acham que somente vocês são tão sensíveis ou tão nobres para estar insatisfeitos com essa sociedade em decomposição e que eles não são capazes de estar insatisfeitos? Vocês acreditam realmente que eles estariam muito mais propensos e condicionados por sua natureza, a ser corrompidos pelas falsas vantagens deste capitalismo militarista do que vocês estariam?

Eu sei, eu sei que os grupos de mais experientes da classe trabalhadora norte americana provavelmente estão quase todos corrompidos. Eles comparam sua condição atual com a que conheceram na década de 1930. Mas com certeza não deram voltas na cabeça do jovem trabalhador norte americano nem este se sentiu confuso pelo fato de que na casa de seus pais tenha televisor e porque ele possa ter um automóvel. Essas coisas ele dá como assegurado. É parte do padrão de vida que encontra ao entrar na sua etapa adulta. Seguramente que não está corrompido por ela e que tem razões suficientes para se sentir insatisfeito. Estou convencido de que por trás de sua apatia política, existem camadas e camadas de dúvida e descontentamento e o sentimento de que precisam ganhar a vida trabalhando para a morte, trabalhando para a guerra.

Não poderiam se aproximar deste jovem trabalhador e dizer-lhe que o modo de viver é trabalhar para a vida e não para a morte? Não teria relevância para os estudiosos norte americanos a tentativa de fazer isso?

O professor Marcuse nos disse que não devemos mais seguir contando com a classe trabalhadora, porém não disse com quem devemos contar. Disse que devemos contar com a gente jovem que grita o seu descontentamento a respeito das convenções sexuais desta sociedade. Naturalmente, também devemos contar com eles. Afinal de contas, foi Engels quem escreveu sobre as origens da família e mostrou a família como uma instituição pertencente somente a uma fase, ou fases, da história da sociedade; e mostrou as convenções da moral burguesa construídas em torno da família.

Não devemos ignorar a insatisfação que existe contra a família e as convenções sexuais entre a nossa gente jovem, mas as vezes penso que esses velhos e veneráveis mestres como o professor Marcuse estão fazendo algumas piadas, simplesmente estão se divertindo as nossas custas. Primeiro, disse que o marxismo não era o bastante utópico; depois segue dizendo que o atual desenvolvimento sugere que a ideia de uma revolução socialista nas sociedades industriais avançadas não era ou não é realista e que é obsoleta, tão obsoleta como a ideia da transformação gradual do capitalismo no socialismo.

Agora, por favor, tirem suas conclusões. A revolução, disse ele, é uma ideia obsoleta e o reformismo é também uma ideia obsoleta. Ou seja, não há nenhum caminho do capitalismo ao socialismo, nem revolucionário, nem reformista. Para que então falar de socialismo?

O que nos disse o professor Marcuse é que o socialismo era utópico, depois disse que o socialismo não era suficientemente utópico. Fico impressionado como é possível que um mestre tão velho e respeitado possa cometer tantos non sequiturs(5) e tanta falta de lógica e jogar com tão vagas e irresponsáveis generalidades em tão poucos parágrafos.

Em muitos aspectos esta discussão tem sido para mim uma triste experiência. Mas sigo sendo um otimista inveterado. Creio que esses são os custos eventuais de um fermento intelectual criativo no meio de vocês. Lhes desejo clareza e honestidade de pensamento, e desejo que vocês possam se concentrar no essencial em vez de se deixar distrair por algumas manobras circenses que não têm nada a ver com o pensamento político sério.

Vocês não podem escapar da política. Os homens não vivem somente da política, isso é certo. Mas a não ser que resolvam por vocês mesmos em suas próprias mentes os grandes problemas políticos colocados pelo marxismo, pelas contradições da sociedade capitalista, pelas relações recíprocas do intelectual e o trabalhador nesta sociedade, a não ser que encontrem o caminho para chegar aos grupos jovens da classe trabalhadora norte americana e despertem este gigante adormecido, este gigante adormecido da classe trabalhadora norte americana, tirando-lhe do seu sono patológico que lhe provocaram, a não ser que vocês façam tudo isso, estarão perdidos.

A única salvação está em voltar a levar a ideia do socialismo à classe trabalhadora e com a classe trabalhadora voltar a tomar de assalto – de assalto, sim, de assalto – as trincheiras do capitalismo.


Notas do tradutor:

(1) O termo em latim “sub specie aeternitatis“, segundo o filósofo Spinoza quer dizer: do ponto de vista da eternidade. ou seja algo que descreve o que é universalmente verdadeiro, ou algo não efêmero. (retornar ao texto)

(2) “O mal-estar na civilização” é um texto do médico e fundador da psicanálise Sigmund Freud que discute o fato da cultura – termo que o autor iguala à civilização – produzir um mal-estar nos seres humanos, pois que existe uma dicotomia entre os impulsos pulsionais e a civilização. Portanto, para o bem da civilização, o indivíduo é oprimido em suas pulsões e vive em mal-estar. É um dos principais escritos onde Freud esboça a relação entre os elementos de sua teoria da consciência com uma teoria social (Wikipédia). (retornar ao texto)

(3) ”A expressão latina petitio principii (“petição de princípio”) é uma retórica falaciosa, por vezes proposital, por cansaço no debate com um interlocutor persistente como, por exemplo, uma criança. Não necessariamente o argumento é falacioso, ou não pretende ser falacioso, contudo sarcástico e/ou admoestador. (Eu estou certo porque sou seu pai, e os pais estão sempre certos.) O recurso não necessariamente pretende ser falacioso, mas um dispositivo retórico para encerrar um diálogo por hierarquia ou pela persistência do locutor, que pode ser uma criança. (A igreja tem suas portas abertas. E por que o cachorro entrou na igreja? Porque as portas estavam abertas.) É firmar a conclusão que se utiliza para demonstrar uma tese partindo do princípio que ela é válida. (Wikipédia). (retornar ao texto)

(4) Unbehagen (em alemão),traduz-se como: incômodo, desconforto. (retornar ao texto)

(5) Non sequitur é uma expressão latina (em português “não se segue”) que designa a falácia lógica na qual a conclusão não decorre das premissas. (Wikipédia). (retornar ao texto)

Inclusão: 04/07/2020